15 de fev de 2006

Procure usar tênis!

Ela acordava todo dia pela manhã uma hora antes de ir pra aula. Isso porque tinha que se arrumar: chapinha, rímel, sombra, batom, perfume e uma demorada escolha pela roupa ideal. Ousada não saía de cima de um salto, e jamais abria mão de um belo decote para ressaltar seus seios afortunados. Nos dias que tinha aula de educação física, levava tênis e calça de lycra na mochila vinda da Europa, e a deixava no vestiário trancada em um armário.

Era uma garota de poucos amigos. Sentia-se superior demais pra falar com qualquer um. Jamais olhava pros garotos que sentavam na frente, os nerds da turma. Todos a conheciam, mas ela conhecia poucos. Eles a conheciam porque era bonita, bem vestida, rica, e porque nunca perdia a pose. Jamais caiu do salto, jamais tropeçou, jamais borrou a maquiagem, jamais ficou se brinco, jamais ficou sem as unhas feitas e jamais esteve com o cabelo despenteado.

O garoto de óculos da primeira fila de sua turma sabia que ela não sabia quem ela era. Sabia que ela estava escondida por trás de tantas roupas caras. Que aquela falsa garota alegre não era assim tão alegre. Ele não sabia como sabia, mas sabia. Mas ele não ligava muito pra ela, afinal, ela não ligava pra ele. Não ligava nem mesmo pra quem ela era de verdade. Por quê se preocupar com uma garota fútil que não quer mudar?

Se arrumava tanto, tanto, tanto... mas pra quê? Ela achava que não sabia, mas no fundo sabia. Ela queria despertar a atenção dos garotos da escola. Queria todos os olhos voltados para ela. Queria se sentir adorada em algum lugar. Sentia-se sozinha. Não a percebiam na sua casa, não lhe davam ouvidos, não a elogiavam, nem diziam que a amavam. Namorava com um: o mais popular da escola, mas não gostava dele. Era só um selo de popularidade.

Um dia, uma garota que não gostava muito dela, já que seu namorado a olhava muitas vezes, aprontou uma pra ela. Enquanto ela estava na aula de educação física, a garota pegou a sandália da garota e afrouxou o salto. Saindo da aula, a menina andou um pouco até o bar. De repente caiu o primeiro tombo da sua vida. Despenteou o cabelo, arranhou os joelhos, quebrou uma unha e rasgou a roupa. Seu namorado não parava de rir e sequer a ajudou a se levantar. O rímel escorria junto com as lágrimas e todos ao seu redor riam. Ela não sabia mais se era tão bom ser tão conhecida assim. Se fosse uma qualquer da escola, não haveria uma roda de pessoas ao seu redor caçoando. Se fosse uma nerd estabanada aquilo seria normal. Mas pra perfeitinha da escola aquilo era um presente pra quem a invejava. Ela não sabia se era pior ser caçoada, mas com todas pessoas sabendo que ela existe; ou se era pior não ser nem notada dentro de sua casa, nem que fosse para rirem dela. O garoto de óculos abriu espaço no meio das pessoas, pegou-a pelo braço e disse:

- Deixem-a em paz!

Olhou-a nos olhos através de suas lentes grossas e disse:

- Às vezes, depois de um grande tombo, a gente se ergue mais forte. É como um erro, depois que cometemos um, não queremos cometer outro, então evitamos ao máximo. Portanto, procure usar tênis e olhar bem por onde anda. Podem haver muitas pessoas querendo derrubá-la, mas outras que você nunca percebeu, podem ajudá-la a se reerguer.

Depois de ajudá-la a se erguer, o garoto deu às costas e foi em direção ao bar. Depois de uns quatro passos pode ouvir um grito suave:

- Espere!

Talvez ela só quisesse agradecer a ele, talvez ela tenha aprendido a olhar para o lado ou talvez ela não tenha entendido nada.

Um comentário:

  1. Sabe que quando iniciou a descrição da preparação da moça pra sair eu pensei que este texto seria uma auto-biografia. hehehe. Mas fora o fato de estar sempre bem vestida e bonita, está longe de ser uma descrição da autora que é querida e amiga.. Beijos Tassia

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