8 de jun de 2006

O egoísta

Durval nunca dividia nada. Ele era extremamente egoísta. Durval era um egoísta fora do comum, ele não dividia nem mesmo o banco do ônibus. Pois é, quando o ônibus estava lotado ele nunca entrava. Nos horários de pico ele nem se quer cogitava a idéia de pegar um coletivo. Por sinal, a palavra coletivo causava uma certa náusea em Durval. Quando ele avistava um banco de dois lugares vazio ele logo ocupava o acento do lado com uma mochila, um casaco ou seja lá o que for que ele estivesse carregando consigo.


Em casa todos já haviam se acostumado com as manias de Durval, apesar de excêntricas. Mas um dia, Durval recebeu uma notícia avassaladora que iria mudar para sempre sua vida. Ele ia ser pai. E de uma menina.


A partir daquele momento ele passou a visualisar cada momento de sua vida. Ele imaginava o bebê chorando e a mãe acordando para cuidar dele. Primeiro ponto: ele ia ter que dividir a atenção da sua esposa com bendito fruto do ventre dela. Segundo ponto: até uns nove anos de idade a criança acordaria durante a noite e iria dormir com os pais por algum motivo especial, tipo medo do bicho-papão. Dividir a cama com a mulher já tinha sido uma vitória incálculável para ele, mas dividir com a filha seria muito mais do que ele poderia suportar. Ponto três: depois a menina se tornaria uma aborrecente e iria namorar. Daí seria o fim, ele teria que dividir sua doce e pura meninha com um marmanjo que provavelmente teria tatuagens, piercings e que dizia se comunicar usando palavras como "Pô", "Meu", "E aí", "Tá Ligado" e ainda por cima o chamaria de "Coroa", ou de uma forma mais gentil de "Sogrão". Ponto Final. Ele resolveu radicalizar, mudar sua vida!


Já que não poderia evitar a vinda da criança tão desejada pela mãe, ele teria que criar uma estratégia para administrar seu egoísmo. Ficou dias a fio procurando uma saída que conseguisse fazê-lo mudar aos poucos. Não achou. Ou melhor, não achou uma solução que o mudasse aos poucos. Somente uma. Uma única solução que não o mudaria aos poucos, e sim rapidamente e pra sempre. Durval prometeu para si e para Deus que jamais seria egoísta como um dia foi.


Passados alguns dias, Durval passou a pegar ônibus e não colocar nenhum objeto no acento ao seu lado. Depois passou a dormir tranquilamente ao lado da bela esposa. Um dia quando ela havia esquecido a escova na casa da irmã, ele até dividiu a escova de dentes. A ESCOVA DE DENTES. Depois dividiu a cueca com um amigo que passou por apuros. A CUECA. Seu progresso mais evidente foi quando emprestou para um colega de trabalho seus CDs favoritos, o do Sydney Magal (o sangue dele ferve por esse cara), o do Roberto Carlos, o cara doido que fala com as plantas e o do Wando, o tarado das calcinhas. Até que um dia ele demostrou total cura de sua doença egocêntrica. Foi quando em uma visita de seu vizinho à sua casa, percebeu o quanto ele admirava sua esposa. Contente por possuir mulher tão formosa e ao mesmo tempo tão sensual, Durval olhou para o vizinho Roberval e dirigiu a palavra a sua amada esposa:


- Tá bom amor pode ir. Eu te divido com o Rob...


Uma lágrima escorreu por seu rosto, mas ele estava feliz. Ele havia vencido a sua doença.

2 comentários:

  1. mazaaa tem outra cronista na rádio-escuta!!! tô dando uma banda na internet, sábado de manhã, na rádio-escuta... bom, pelo menos no meu trabalho dá pra ver o jogo né, nesse momento, a inglaterra tá ganhando de 1x0 do paraguai...
    bah, mas esse durval hein... me racha a cara. ser egoísta demais não era, mas dividir a mulher... o que que é melhor? ser corno ou egoísta??? eis a questão

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  2. Oie, olha eu aqui de novo. Tô vendo que voltou a fase, Ponto de vista nada radical, afinal, ou o cara é egoísta ao extremo ou prestativo demais né. Mas infelizmente é mais fácil encontrar o durval da primeira fase pelas ruas. hehehe

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