27 de nov de 2006

O Velho Guerreiro!

Às 3h30min do dia 25 de novembro de 2006, sofri uma das maiores perdas da minha vida. Mas a perda, com certeza, foi mais dolorida para o meu pai, para as minhas tias e para a minha avó. Nem posso imaginar o sofrimento de perder meu pai ou minha mãe. Não quero nem pensar que um dia isso vá acontecer. Não sei como serei capaz de viver sem eles. Meu avô, Joaquim Gonçalves de Oliveira, ou Joaquim Carroceiro, como era conhecido pelos velhos amigos da cidade, faleceu aos bem vividos 94 anos de idade. Pelo menos é essa a idade que consta nos registros, mas não se sabe ao certo com que idade ele foi registrado em cartório.

Seu Joaquim viveu intensamente até os últimos minutos. Ele amava viver. E fez de tudo pra permanecer na Terra entre a família e os amigos, mas não foi essa a vontade de Deus. Ele não queria deixar pra trás tudo que ele contruira ao longo dos anos. A família, os amigos, a casa, a horta, os cachorrinhos, em especial a cadelinha de estimação que era a alegria dele e vice versa, as flores...enfim. Quando estava no hospital, ele pediu que levassem uma das flores que ele plantou pra que ele visse se havia florescido. Ele sabia o que era aproveitar a vida e não se conformava em deixá-la. Suportava a dor e não reclamava. O câncer que ia corroendo seus órgãos não era o bastante pra fazê-lo desistir de lutar.

"Seu Joaquim tinha olhos fundos. Olhos que a neta puxara dele. Era magrinho feito um pau de sebo, outra característica que a neta herdara dele. Porém era dono de uma força invejável. Tinha mãos e orelhas grandes e poucas rugas para sua idade. O seu rosto transparecia uma alegria de viver indescritível. Quando seu Joaquim sorria todos sorriam. Ele transmitia um amor no coração e uma bondade que jamais ninguém viu em outra pessoa. Aqueles olhos fundos de homem que tem muitas histórias de vida, também tinha o brilho fascinante dos olhos de uma criança. Seu Joaquim era encantador, apaixonante. Ele era fascinante. "

Hoje sem meu avô por perto, vejo que seu único irmão ainda vivo também é capaz de transmitir uma bondade e uma sensação maravilhosa a quem está perto dele. Talvez, porque ele seja praticamente igual ao meu avô e tenha uma história de vida tão linda quanto a dele!

Lamento, assim como toda minha família, não ter chegado na cidade a tempo de vê-lo vivo. No fundo queriamos tê-lo ao nosso lado no Natal, mas não podíamos ser egoístas a ponto de pedir a Deus que o deixasse aqui por mais tempo, sofrendo como estava. Certamente não haverá tristeza maior do que passar o Natal sem ele, só de lembrar que exatamente no dia 25 fará um mês que estaremos sem ele, dá uma dor no peito. Mas, quando penso nisso, prefiro lembrar que ele era um anjo. Aqui na Terra ele não tinha asas, mas certamente ao chegar no céu, Deus o presenteou com um lindo par de asas. Quando fico chateada com Deus porque ele levou meu vô antes que eu pudésse vê-lo, prefiro acreditar que Deus tinha uma missão urgente e precisava convocar os anjos mais fortes, e por isso teve que levar meu vô com urgência para o árduo combate que eles teriam pela frente. Sabendo que meu vô era um "velho guerreiro", ele não podia mais perder tempo. Tinha que chamá-lo logo. Não podia esperar. E ele já havia sofrido o bastante como punição aos seus pecados. Agora bastava, agora ele tinha uma tarefa muito importante lá em cima. Cada um acredita no que quer. Minha mãe contou que momentos antes da sua morte ele falou: - "Poli, que bom que tu veio me buscar." Os espíritas que eu conheço juram que o irmão do meu vô veio buscá-lo e que agora meu vô ainda esá dormindo e talvez nem saiba que morreu. Espero que ele já saiba, mas que esteja com seu irmão nessa missão. Porque se não vou ficar pensando todas as noites nele até que ele descubra que morreu quando acordar. E como vou saber que ele se conformou se ele não queria morrer? Melhor acreditar na dura batalha dos anjos!

O velho guerreiro, como descrevera seu melhor amigo em homenagem que prestou a ele na missa do dia do seu falecimento, nasceu no meio dos índios, foi albetizado por uma moça de origem alemã mais nova cujos olhos azuis o encantaram tanto que, futuramente, ela viera a se tornar sua esposa e companheira pra toda a vida. Batalhou a vida inteira para conquistar tudo que sempre quis. Com sua força de vontade ergueu um dos, se não, o primeiro prédio da cidade. Um hotel. O velho guerreiro sempre foi um homem mirrado, pequeno, mas forte feito um touro. Era um homem justo. Tão justo que fazia a justiça com as próprias mãos. Vingou a morte do irmão mais velho e do pai sem temer nada nem ninguém quando não havia justiça. Defendia os três filhos mesmo se tivessem errados. Em casa ele acertava as contas com os filhos, sem dó nem piedade, mas na rua era só os filhos dele. Ele era um educador rigoroso, mas amável. Era temido e adorado. Era bravo e alegre.

Assim como teve três filhos, teve três netos. Ele já não era mais aquele homem temido quando nasceram. E sim o avô amado por todos. Um avô carinhoso e dedicado que nunca levantou a mão pros netos. Jamais brigou com nenhum. Somente nos deu o exemplo de homem íntegro, honesto, carinhoso e meigo que era. Como foi descrita em homenagem feita à ele, seu sorriso meigo encantava a todos.

Para minha família, nada era mais triste do que ter que se despedir dele toda vez que íamos visitá-lo. O carro ia indo embora e ele ficava no portão abanando e com os olhos cheios de lágrimas. Era duro pra ele morar longe de dois netos e de dois filhos. Certamente, o coração dele deve ter se alegrado muito quando fomos morar pertinho dele por algum tempo.

Mas a despedida mais dura certamente foi a desse fim de semana. É triste olhar para um velhinho lindo como ele e pensar que não voltaremos a vê-lo novamente a não ser quando fecharmos os olhos e deixarmos que suas lembranças invadam nossas mentes, ou que nos sonhos ele nos ilumine com seu sorriso.

Hoje tenho mais conseciência, quando pedi minha avó ainda não entendia muito bem sobre a morte e, infelizmente, às vezes não consigo lembrar de muitas coisas já que ainda era pequena. Mas toda vez que fecho os olhos lembro só das coisas boas que vivi com ela. Espero que no céu a Dona Maria e o Seu Joaquim se encontrem para prosear tomando um mate por um bom tempo e para juntos unirem suas forças para continuarem iluminando a todos lá em cima e aqui em baixo, caso tenham virado anjos. E pra daram forças pro Seu Nelson e pra Dona Valda, pricipalmente, que choram de saudades deles.

Eu se fosse Deus, não pensaria duas vezes. Chamaria ambos para que fossem meus fiéis escudeiros para repassar amor a todos que precisam deles. Porque amor eles tem pra dar e vender!!!

2 comentários:

  1. é sempre triste né...
    mas é melhor se lembrar dos bons momentos a chorar pelos perdidos!
    me doeu muito quando a minha avó se foi, preferi pensar assim como tu, que ela era um anjo (e realmente era)
    tu falou que foi triste não chegar a tempo lá, eu fico de cara comigo pro resto da minha vida de não ter me adiantado um pouco... meu avô morreu dia 17/12/1985, eu só consegui chegar ao mundo dez dias depois.
    minha mãe dizia que ele deitava de mãos dadas com ela e fazia bastante carinho na barriga, que fosse pra ele me conhecer ao menos, mas não consegui. coincidência, dizem que eu tenho algumas características dele - o que me deixa orgulhoso e me serve de consolo.
    mas a morte é inevitável, um dia eu conheço ele ainda, tenho certeza

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  2. Noooossa, que texto mais lindo :)
    Gosto do jeito que tu fala das pessoas, a gente acaba o de ler pensando que conheceu teu avô e adorando ele, sabia?

    Mas só te digo uma coisa, por mais que a gente amadureça, nunca estamos prontos pra perder alguém. É que o egoísmo é uma das características que nos difere dos animais.
    Parabéns por conseguir transformar um sentimento de perda num relato tão bonito, guria!
    Beijo!

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