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Infância roubada

Crianças. Será que ainda existem? Em que momento a infância termina, nos dias de hoje? Eu deixei de ser criança parcialmente aos 12 anos, quando achei que as festinhas com a turma eram bem mais divertidas que as bonecas. Mas eu senti a chegada da adolescência normalmente. Percebi que meus interesses estavam mudando, assim como os da maioria dos meus amigos. Foi um processo natural e saudável. Mesmo virando adolescente nunca deixei de agir feito uma criança boba de vez em quando pra me divertir. O ideal é nunca deixarmos de ser crianças, nem que seja um pouquinho só. Mas esse foi o meu jeito de crescer. A maneira como as crianças crescem agora, é muito diferente.

As meninas largam as bonecas bem antes dos 12. Descobrem que é mais interessante maquiar a si mesmas do que maquiar rostos de plástico; As músicas que escutam não são mais ao estilo Chiquititas, Xuxa ou Balão Mágico. Agora a moda é ouvir Rebeldes (que não são órfãs vestidas de forma comportada, mas sim meninas que andam seminuas), Tati Quebra Barraco e alguns MC's que pregam a mesma coisa: Sexo, traição, e drogas; Começaram a "ficar" bem mais cedo. E ficar não é mais só beijar. Cada vez mais cedo, elas deixam o Ken (da Barbie) de lado e decidem procurar um Ken de verdade; Passaram a achar que um corpo bonito é a solução pra tudo; Em casos mais drásticos, descobriram as drogas e o sexo como forma de diversão, sustento ou revolta; Top suplex não é mais roupa de ginástica, serve para erguer seios que nem se quer se formaram por completo ainda;

Os meninos sempre foram precoces em se tratando de sexo, mas não tão promíscuos quanto são hoje; Descobriram nas drogas as mesmas saídas que as meninas. Muitas vezes, e em regiões mais pobres, do consumo eles passam para a venda, o tráfico. Dessa forma, eles conhecem a morte bem mais cedo do que deviam. Nas favelas, os garotos, desde muito cedo, têm responsabilidades de adultos. Viram falcões, aviões e pouco depois donos da boca. Segurar uma AK47 pode ser mais fácil pra eles do que pra um policial. Eles não tem mais visão pro futuro, passam a ver no tráfico a esperança de sustento da família. Se matam sem remorso, mas também podem ser mortos e parecem não se importar.

A gente pensa que esse tipo de coisa acontece só em favela, mas não é bem assim. “Filhindo de papai” também mata, mata pra roubar um boné, um tênis (mesmo que o tenha) e até por causa de briga. Em muitos casos, mesmo que intimamente, admiram os meninos da favela por seu poder que os transforma em homens antes do tempo. Não importa se são pobres ou ricos, as idéias na cabeça não fogem muito do comum.

Peço licença para um parêntese. Há alguns meses, fui em um evento que fazia campanha contra a exploração sexual infantil e que tinha apoio de diversas entidades e órgãos governamentais. As crianças haviam preparado uma apresentação para a ocasião. Elas dançaram funk com letras nada apropriadas. "O bagulho tá sério vai rolar mo adultério", "Só porque eu sou novinha acham que eu tô de bobeira, daí que eu caio pra dentro porque eu sou beijoqueira", são trechos das músicas que elas dançaram. Incrível como as músicas naquele dia pregaram exatamente o contrário do que deveriam. Incentivavam a erotização infantil ou pela letra ou pela dança das meninas.

Infelizmente, a infância das nossas crianças foi roubada. Elas não acham mais importante ter cultura, e sim ter corpo. Porque um corpo bonito é uma porta de entrada pro sucesso. E uma mente brilhante pode ficar esquecida em um canto devido à falta de incentivos na educação. Eles acharam um novo jeito de ser empresários bem sucedidos, empresários do tráfico. Talvez seus rumos não sejam tão ruins, mas certamente suas cabeças não serão cheias de inteligência e sim de futilidade. Lamentável!
No CD do filme e seriado global Antônia tem uma música que trata desse assunto e que fala tudo, na minha opinião. Eis ela abaixo, vale a pena ler e escutar.

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Antônia - Criança.com


Din din, don don

Din din, don don

Nossas crianças estão virando .com

Din din, don don

Din din, don don

O doce delas agora não é bombom


Hoje não tem mais essa de neném

Nem rola mais "gugu-dádá", "tem-tem"

A salada mista é tirar a roupa

Coisa de criança, ficar nu, beijo na boca

Sem essa de mina brincar com boneca

Deixou cair a peteca, já trocou pelo boneco

Levando bem mais a sério a brincadeira de médico

As pequeninas não sonham em ser Chiquititas

Querem ser coelhinhas da Playboy e não Paquitas

Já era O "xuxuxu xaxaxa", o ritmo é outro

Quem não sabe vai dançar

Sopa de letrinhas agora escreve em frases proibidas,

Praticadas e não lidas e passam despercebidas

Hum baba baba baby baba, no escuro das baladas

Rola até o impossível, tudo menos palavras

Na era do silicone, novos tempos

Onde só conta o ibope

Mesmo quem não tem estilo levanta fã do Botox


Ref


Estar na moda toda hora virou papo que incomoda

Tô por fora dessa onda que afoga a liberdade

E a simplicidade do cabelo black power, jeans e top

Então se jogue e não se enforque

Seja livre como eu sou, seja no reagge, samba ou hip-hop

Eu não seguindo as vezes o shopping

Chega de regras Tô no limite, não gosto de rédias

Tá tudo errado, quer a drama? Já virou comédia (então me erra)

Tô afim de sair do padrão Só faço rimas porque ninguém gosta de ouvir sermão (mas vê se liga)

Na era da Internet, Orkut Barbie, Balão Mágico só minha mãe que curte

Não é mais minas contra minos, é diferente o esquema

No clube do Bolinha e o da Luluzinha mudou o sistema

É muito louco mas essa loucura passou do limite

Seguir tudo a todo custo pra agradar quem te assiste


Ref


Tô dizendo o que acho, sem deboche ou esculacho

Com um pouco de ironia mas é sério o que eu falo

Não tem problema se você não concorda

Se a minha rima é torta e esse tema te incomoda

Só abre o olho depressa Isso também te interessa

Não é conversa furada Entenda a forma que meu verso expressa

Depois me disse do jeito que tá dá pra ser feliz

Tô falando do que acontece debaixo do seu nariz


Ref

Comentários

  1. é a banalização do sexo

    Táta, pra tu postar texto que nem a gente fez, tem que transformar antes e jpeg e postar como foto. é simples.

    bjocas

    espero tua visita, mas não agora que tô entrando de férias. volto dia 14

    Fabian

    ResponderExcluir

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