4 de jan de 2008

Não fui eu!

Por: David Coimbra (fugindo ao padrão do blog, esse texto não é meu, mas como vale a pena ser lido, resolvi postar)

Fosse acreditar nos cartões de fim de ano, estaria explodindo de amor-próprio. Acharia que lojas, empresas de construção, farmácias, vereadores e agências de publicidade me amam verdadeiramente. Não só isso: acharia que nada é mais importante do que eu, para eles. "O mais importante para nós é você!", juram-me todos.

Mas não é verdade, sei que mandam esses cartões para todo mundo. Então, nem os abro. Recebo um envelope, aqui na Redação, vejo que é de felicitações, bibibi, e enfio-o direto na lata de lixo ao lado da mesa.

Fico pensando nas árvores, quando faço isso. Quantas árvores continuariam vivas, fazendo fotossíntese com plena alegria, se ninguém enviasse cartão de Boas Festas? Quantas florestas? Vejam, vegetarianas, como também posso ser ecologicamente correto.

Mas a fúria que se abate sobre as pessoas para desejar alvíssaras aos outros é tão intensa, tão irrefreável, tão incontida, nessa época do ano, que elas não ficam felizes em apenas mandar cartões. Elas vão para a internet e começam a enviar mensagens de bom Ano-Novo indiscriminadamente, durante dias a fio, sem parar. Eu mesmo recebi centenas, sério!, centenas de imeils de desconhecidos com o mesmo título: "Que venha 2008!" Não cheguei a ler o restante da mensagem, mas o tom de desafio me intrigou. Que venha 2008! Uma espécie de chamamento para a briga. Certamente, é de alguém que não teve um bom 2007, espera algo pior, mas garante que não vai desistir. Quer dizer: não irá se jogar do oitavo andar, por exemplo. Não sei se essa pessoa faz bem em ser tão insistente, mas o fato é que seu arrosto a 2008 encontrou seguidores sem fim, estão todos por aí de queixo erguido, encarando 2008 com uma faca entre os dentes.

Eu recomendaria mais prudência. O ano mal começou, sabe como é... Não que meu 2007 tenha sido ruim. Ao contrário: foi ótimo. Mas, no finzinho, no dia 31, abateu-se sobre meu fatigado corpo uma virose, ou algo do gênero, que me pôs de cama, com febre e enjôos pelo dia inteiro e que ainda não me abandonou completamente. Fazia 11 anos que não ficava doente. Onze anos! Por isso, febril, suando, sozinho no escuro do quarto, refletia penosamente sobre as razões de aquilo ter acontecido comigo. Era difícil de pensar, vinham-me à cabeça imagens de corujas na praia, de retrospectivas na TV, do Rei cantando, até que fiat lux! Lembrei dos imeils. Que venha 2008! Que venha 2008! Que venha 2008! Aquelas milhares de mensagens desaforadas passando pelo meu endereço eletrônico, e aí 2008, como se dissesse, ah é, é?, começou desse jeito para mim. Não fui eu! Eu não tenho culpa! Odeio cartões de felicitações de qualquer tipo! Odeio imeils com cachorrinhos, criancinhas, passarinhos e Jesus, com mensagens emocionantes. Não que tenha algo contra os animais, as crianças ou O Senhor, por favor! Tenho-os todos em máxima conta, viram, vegetarianas? Mas é que não vou perder tempo lendo imeils de mensagens edificantes, por mais edificantes que sejam. Não vou! Não adianta me mandar. Portanto, aqui de dentro do meu corpo enfraquecido, quero deixar bem claro: não sou a favor de afrontas contra anos-novos. Prefiro a composição, a tolerância, o jeitinho. Calma, 2008. Calma.

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