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É muito difícil me autodescrever. Acredito que as pessoas que convivem comigo fariam isso com mais veracidade. Se eu pedir para meus pais me descreverem, terei parcialmente meu perfil. Se anexar à descrição deles, a dos meus amigos e a do meu namorado, terei outra parte. Afinal, se não fossem os outros, eu nunca teria me dado conta de que minha voz é irritante (nem me dou conta, mas aceito o fato) e de que falo demais (mesmo quando acho que os outros é que falam demais). Entretanto, talvez eles não me conheçam tão bem, já que nem eu sei quem sou ao certo. Mas todo mundo se vê de alguma maneira e eu me vejo como uma Metamorfose Ambulante. Isso porque eu gosto de dizer “o oposto do que eu disse antes”. Não só dizer. Eu gosto de ser o oposto do que fui antes e de fazer o oposto do que eu fiz antes. E acho que faço o certo, porque “eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”. Acho que faço certo, porque “é chato chegar a um objetivo num instante” e porque “eu quero viver nessa metamorfose ambulante”.

Assim me descrevo, pois mudo constantemente, seja de opinião, de roupa, de comportamento, de estilo ou de idéia. Há dias que sou super amorosa, quero fazer todos ao meu redor felizes, noutros, quero mais que eles se fodam. Dias em que penso muito nos outros, dias em que só quero saber de mim e de mais ninguém. Dias em que sou um ser angelical, boa até demais, noutros, sou uma diaba, ruim, ruim, que só eu sei. Dias em que me amo, noutros me odeio. Dias em que estou alegre, noutros triste. Dias que acho certo, noutros errado. Dias que quero, noutros não quero mais. Dias de tênis, dias de salto. Dias que desejo o sol, noutros chuva. Dias que a música me da paz, dias que só silêncio me acalma. Não sou feliz, nem triste. Simplesmente sou. Como escreveu Mário Quintana em seu Verso Avulso,“Eu não sou eu, sou o momento: passo”.

De qualquer forma, eu gosto de ser como sou, mas também odeio. Não faço parte dos padrões de beleza americanos-brasileiros e me odeio por isso. Mas, ao mesmo tempo, me amo. Amo meus cabelos cacheados-ondulados, ou sei lá o quê, e não os trocaria por um liso loiro tão convencional. Também amo minhas pernas fininhas, meu manequim 36, meus 50 quilos e meu 1,64. Não gostaria de ser uma mulher alta, nem gorda, nem um mulherão, pois não acho atraente nem delicado (um gosto pessoal caso eu fosse homem, é claro). Também gosto do meu sorrisão, dos meus olhos castanhos e da minha pele moreninha. Gosto de ser como sou, apesar de não fazer parte dos padrões de beleza que a mídia insiste em impor fazendo com que a gente se odeie na maior parte do tempo. Gosto de ter cérebro, ao invés de um corpão de funkeira. Gosto de ser inteligente, ao invés de fútil. Mas quer saber, não fico criticando paniquetes ou mulheres frutas. Cada uma tem que saber aproveitar seu talento. Dou boas risadas e as acho lindas. Nem toda mulher linda é burra. Isso é revolta demais né?

Indo mais a fundo na minha filosofia barata, lembrei que existem grandes pensadores com os quais me identifico e penso então que não sou tão anormal assim. Em um trecho do livro de Gabriel García Márquez, Memória de minhas putas tristes, o protagonista diz “"Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir ás minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor não é um estado de alma e sim um signo do zodíaco." Quem sabe, tal como o personagem, um dia eu descubra. Em comum temos a desordem como fator que nos leva à ordem. Fácil perceber que há uma contradição total em tudo na minha vida.

Sou assim, céu e inferno e, tal como Renato Russo, também “quero me encontrar, mas não sei onde estou” e também quero alguém pra vir “comigo procurar um lugar mais calmo, longe dessa confusão e dessa gente que não se respeita”, porque “tenho quase certeza que não sou daqui”.

Dizem por aí que Bob Marley, outro gênio da música (além do Raul Seixas, Renato Russo, Cazuza e Leoni) disse a seguinte frase “vocês riem de mim por eu ser diferente. Eu rio de vocês por serem todos iguais”. Pensando sobre essa frase cheguei a uma conclusão: a de que não cheguei à conclusão nenhuma. Eu não sou diferente, porque todo mundo é igual. Mas também não sou igual, porque todo mundo é diferente. Acho que ser igual é muito chato, é muito fácil, muito entediante. E ser diferente pode ser muito trabalhoso. Mas pra ser diferente eu não preciso me vestir toda de preto, nem ter o cabelo roxo, ser hippie, usar All Star ou ter qualquer outro estilo que as pessoas julguem diferente mesmo tendo porções de pessoas daquele estilo. O diferente não está na roupa que eu uso. Se fosse isso, posso dizer que sou diferente sim, já que cada dia estou vestida de um estilo. Eu quero ser diferente e quero fazer a diferença. Não quero ser diferente pros outros, basta que eu me considere diferente. Eu não preciso fazer a diferença pro mundo, basta fazer a diferença na vida de uma pessoa. Por isso discordo de Júlio César quando ele diz que "é impossível não acabar sendo do jeito que os outros acreditam que você é." Como eu disse no início, ninguém sabe o que você é ao certo, nem mesmo você. Então como você irá imaginar o que os outros pensam de você para se tornar aquilo?”

Há um tempo escrevi num livro que dei de presente o seguinte pensamento: "Quando não somos capazes de escrever nossa própria história, tendemos a querer fazer parte da história dos outros. E, na maioria das vezes, ela não é tão boa como seria a nossa se tivéssemos coragem e vontade de escrevê-la." Moral: nossa história tem tudo pra ser bela se, ao nos espelharmos nos outros, não tentarmos ser igual a eles, pois ser nós mesmos é bem mais divertido.

Sinceramente, “já não me preocupo se eu não sei porquê, às vezes o que eu vejo quase ninguém vê”, porque “enquanto você se esforça pra ser um sujeito normal e fazer tudo igual, eu do meu lado (vou) aprendendo a ser louco, maluco total, na loucura real”. Difícil me entender? Azar o seu, pois como diria Chorão, “eu não vim pra me explicar, eu vim pra confundir”.

Quer saber? Talvez amanhã, quando eu ler esse texto doido, eu ache tudo muito ridículo e desdiga tudo o que disse antes, porque eu sempre serei uma eterna maluca beleza que vive nessa metamorfose ambulante.

Comentários

  1. Falar da gente é sempre difícil,não dá pra se definir em alguams palavras porque ninguém é só uam coisa o tempo todo!

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  2. Tem um provérbio chinês (que eu li num biscoitinho da sorte do China in Box, mas isso não vem ao caso) que diz:

    "Se você quer se conhecer melhor, preste atenção nas críticas dos seus amigos e nos elogios de seus inimigos."

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  3. linda, linda, linda!
    é isso o que tu é, táta.
    por fora e por dentro, na medida!

    saudades absurdas de ti, loucurinha.
    beijããão!

    me passa teu msn!

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  4. Haha, tbm já ouvi dizer que tenho voz irritante e falo demais. Mas eu não acho. :)
    Pra gente se conhecer melhor agente tbm precisa ver outros lados, os lados de quem nos vê.
    Amei o texto.
    Beijos

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  5. Adorei o texto cheio de frases dé música, deu pra percer que adora música né!
    Gosto bastante de me autodescrever apesar de saber que há fatos escondidos por trás disso e que apenas são revelados por olhares alheios.
    Se tudo muda o tempo todo, eu tbm não seria diferente e fico mto feliz com minhas próprias mudanças.

    Excelente texto!
    Bjãooo!

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  6. texto doido, mas real. Agnt é oq é, alguns pensamentos, ações e planos mudam de acordo com que o tempo passa, mas a essência continua sempre a mesma! beijuuu
    (qnd vi o tamanho do texto pensei..ihh a tassia se inspirou legal! hehe mas valeu a pena!)

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  7. Sério, adorei muito teu texto!
    Fiquei sem ar (hahaha). Só te digo uma coisa guria (uma coisa que tu já deve ter escutado demais): TU ESCREVE MUITO!

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