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Castelo de Areia


Perder a hora conversando com a turma na Parcão, na Encol ou na Redenção. Tomar um chimas sentada na grama em meio à gargalhadas sem fim. Ficar na praia desde o nascer até o pôr do sol sentindo a pele queimar, o vento soprar e a água refrescar. Prestar atenção nas estrelas, na lua e no mar ao ouvir as batidas suaves do violão com a turma cantando um reggae num luau à beira-mar. Olhar a fogueira no meio da roda sem pensar em nada, deixando os olhos queimarem junto com ela. O som acalmando e esquentando junto com o fogo. E, mesmo assim, sentir aquela brisa provocando um arrepio ao entrar em baixo da blusa pelas costas. Sair de noite e só voltar de dia. Dormir na areia e acordar com o sol na cara. Cantar na beira da praia sem ligar pros outros. Dançar com salto 15 e os pés cheios de bolhas. Tirar a sandália só pra não parar de dançar. Ser a personagem principal da festa ao se tornar a melhor dançarina da pista, mesmo que tenha aprendido a dançar naquela mesma noite. Se olhar no espelho no meio da festa e ver que já não está tão linda quanto no momento em que chegou e, no entanto, mas não dar a mínima pra isso. Ficar tonta com um copo de caipira e achar que isso é estar bêbada. Estar com a roupa da amiga só pra não usar a sua, mesmo que ela a tenha usado no finde passado e no mesmo lugar. Acordar no mesmo dia-noite que dormiu com os olhos borrados, com a boca seca, com os pés sujos e queimando e com a chapinha desfeita ou com cachos de medusa. Se apaixonar todos os dias. Achar que sabe o que é o amor. Sentir aquele arrepio só de passar perto. Se excitar só com um leve toque no abdômen. Beijar sem amar. Pegar e não se apegar. Falar besteira e se achar inteligente. Ter muitos “amigos”. Dormir e acordar em várias casas. Mentir sem maldade pros pais pra aproveitar mais. Dizer que vai dormir na amiga, mesmo sem saber onde vai dormir. Não ter hora pra voltar, mesmo tendo. Viajar sozinha. Achar que é independente. Achar que é adulta. Querer parar no tempo. Não ter compromisso. Assistir a sessão da tarde. Inventar um trabalho só pra poder passar a tarde no colégio com os amigos.

Ah, a adolescência. Adolescência anos 90, adolescência anos 2000. Quando eu só queria ser feliz e o resto que fosse pra PQP. Quando o mundo era mais colorido. Quando até em dias de chuva o céu era azul. Quando a noite realmente era uma criança. Quando eu não tinha olheiras. Quando eu não parava. Quando eu não cansava. Quando eu topava qualquer parada (em movimento). Quando eu era simpática a todo mundo. Quando eu queria todo mundo bem e todos me queriam bem também. Quando era pop e ao mesmo tempo cult. Quando a vida era mais engraçada. Quando eu achava que tinha problemas. Quando eu achava que eu sabia de alguma coisa.

Passei a adolescência matando tempo, construindo sonhos pra quando ela passasse. Fiz castelos de areia, pois desmoronaram muito cedo. Cresci e meu castelo ficou lá, perdido na infância, na adolescência, na beira da praia, sendo matéria prima pra outra criança construí-lo e perdê-lo quando achasse que estava indo de encontro a ele. Vivi nele e achei que ele estava no meu futuro. Criei um mundo perfeito, quando na verdade, meu mundo era perfeito e eu não sabia. Eu achava que sabia muitas coisas, mas no fundo, eu não sabia nada.

Comentários

  1. Oi ex-colega da Unisinos que eu não lembro.

    Acredito que todos nós construímos alguns castelos de areia que acabaram desmoronando. Porém, foram grandes aprendizados. O maior deles, acredito, que mostra a desnecessidade de viver sempre pensando no futuro. Que é melhor viver o presente com intensidade do que procurar investir em algo que nem sabemos se vamos estar vivos para ver.

    Mas coisas da vida. E a gente vive. Com coisas boas e coisas ruins.

    Beijo

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  2. Acredito (e já falei aqui), que cada momento tem a sua dor e delícia própria, intransferível e particular, e que nos formam. Saudades sempre temos, e é natural, mas a cada momento somos felizes, é que não damos conta disso. Bjus e boa semana.

    http://so-pensando.blogspot.com

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  3. Nossa Tássia, que coisa mais linda você escreveu.
    Fiquei muito tocada.

    Eu também sinto falta de ter os "problemas" de adolescência... ai como eu era feliz!

    Mas é a vida, e não é nada fácil ver meus castelinhos cairem, um por um.

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  4. Sinto que a cada dia um castelo desmorona... enquanto construo um, o outro cai.
    Senti algo nostálgico ao terminar de ler isso.
    E me amedronta pensar que ainda muitos castelos cairão, embora, posteriormente eu venha me dar conta de que não teria chegado aqui sem as quedas.

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