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sem lona e sem graça


O circo desmoronou. A chuva forte derrubou a lona. O palhaço já não faz mais ninguém rir. No seu último espetáculo, pela primeira vez, ele pintou aquela lágrima preta do lado direito do rosto. No seu último espetáculo, já não havia um teto sob ele e várias lágrimas de chuva escorriam sob sua face.
E o fiel público... Que público? Ele era público dele mesmo. De suas piadas só ele ria, ninguém mais. Ele sempre esteve sozinho no palco, mas de tão centrado em si mesmo, nunca percebeu que não havia aplausos no fim do show. Ele era o fã número um dele mesmo. Ele era aquela criança inocente mordendo sua maçã do amor na primeira fila. Era aquela mãe séria que odiava circos, mas que não conseguiu evitar o riso ao ouvir aquela velha piada sobre a sogra. Ele era público dele mesmo. Mas só agora que ele via que nunca teve graça pra ninguém a não ser pra si mesmo. Ele era uma piada sem precisar fazê-la. Só agora ele percebia que sempre guardara dentro de si o drama e não o comédia.
Pobre palhaço, seu único desejo era se assemelhar a vida que ele tanto admirava. Mas agora que não sabe quem é, muito menos sabe o que é a vida. "A vida é uma palhaçada ou uma tragédia?". "Por que apesar das multidões as pessoas estão sempre sozinhas?". "Será que ao se isolarem encontram a multidão que desejam?". Ah que complicação, tantas coisas passam agora pela cabeça do palhaço. Inclusive a chuva. Pelo menos os sapatos do palhaço não apertam seus dedos. Se apertassem, a estrada que o espera seria bem mais longa.

Comentários

  1. Nossa,que lindo ...realmente apesar das multidões nos sentimos sozinhos,é como se todos estivessem ali e não preenchessem vazio nenhum,só estvam por estar.Acho que sempre estaremos sozinhos em certo ponto por causa de termos um pensamento único e por não querermos compartilhar nossos segredos.
    beeijos

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  2. Oi palhaço. hahahahahaha
    adorei a última frase, que efeito heim! ;)

    beijo

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  3. Coitado do palhaço.
    Agora ele irá começar a frequentar bares, beber sozinho, abandonado, pensando nela. Nelas.
    Mais tarde, passará a escrever em guardanapos, cantarolar suas próprias composições.
    Em seguida, faz um blog e publica tudo isso!

    beijo

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