26 de out de 2009

Pílulas de reflexão


Pensando a Sociedade Contemporânea
As aulas de psicologia da faculdade têm sido ótimas. Os conhecimentos que tenho adquirido vêm despertando a cada dia um maior interesse pela área de minha parte. Diante disso, descobri que realmente preciso de mais tempo pra ler tantos bons pensadores que o professor indica com tantas ideias fascinantes e contemporâneas da sociedade.
Aula passada ele falou um pouco sobre Zigmunt Bauman (ao lado), nos entregando cópia de uma entrevista concedida por ele ao "O Globo", em abril deste ano. Vale destacar algumas partes, sendo que uma já levei em consideração no texto que escrevi há pouco intitulado "Abstinência Virtual", cuja ideia dele com a qual concordo me inspirou. Pra explicar porque esse cara despertou meu interesse, inicio com o seguinte trecho: "O mundo, como somos induzidos a acreditar, tornou-se um contêiner sem fundo de coisas a serem consumidas e aproveitadas. A arte de viver consiste em esticar o tempo além do limite para encaixar a maior quantidade possível de sensações excitantes no nosso dia-a-dia."
Eu, particularmente, já parei pra pensar sobre isso várias vezes. Isso porque, diariamente, sou sugada ao extremo por mim mesma. Pra vocês terem noção, carrego sempre comigo um caderninho preto com a palavra "Felicidade" na frente (preto com a palavra Felicidade?), onde anoto tudo que tenho que fazer, desde idéias de contos, crônicas, passando por assuntos curiosos sobre os quais quero pesquisar, até tarefas rotineiras das quais não posso esquecer. O problema todo é que nesse caderninho têm tarefas por fazer há mais de ano. E o tempo pra realizá-las fica aonde? Me cobro diariamente e raramente me pago. Esse texto, por exemplo, é um pagamento. Faz dias que ele está na pauta pra ser escrito, mas só agora, apesar do sono batendo, me sobrou um tempo e disposição suficiente pra escrevê-lo. É que tenho tantas coisas pra consumir, principalmente conteúdo impresso ou virtual, que fica difícil dar conta. Sem falar das novas dívidas que surgem quando estamos tentando quitar as antigas. São tantas coisas que me obriguei a marcar um oftalmologista pra mim. Meus olhos andam bem cansados. Mas vocês acham que dá pra descansá-los? Não dá! O mundo não pára. Preciso estar atualizada sobre tudo aquilo que me interessa profissionalmente ou não, mas que servirá pra determinada ação ou me satisfará. Preciso consumir livros, sites, roupas, ideologias, experiências de vida. Necessito devorar tudo isso com uma gula desesperadora. Há tanto espaço no meu cérebro assim?
Noutro trecho, Bauman fala: "Não importa o quanto tentamos, nunca estaremos em dia com o que aparentemente nos é oferecido. Vivemos um tempo em que estamos constantemente correndo atrás. O que ninguém sabe é correndo atrás de quê."

É verdade, acho que todos os itens do meu caderninho preto nunca serão riscados. Isso porque, como disse antes, ao trilharmos o caminho planejado tentando subtrair as tarefas que nós mesmos nos estipulamos, sempre encontraremos novas e velhas coisas a serem satisfeitas antes das objetivadas. E o caderninho abstrato? Aquele que planeja coisas não tão fáceis de controlar assim, como a filha mulher parecida com a mãe, a casa com sacada e floreira num bairro tranquilo e verde, o marido amável, o cachorro companheiro, o emprego que dá prazer? E, além do mais, será que quando realizarmos esses sonhos ainda lembraremos que um dia eles foram um sonho ou já estaremos tão entretidos com os novos que esqueceremos que aquele era nosso ideal de felicidade? O que queremos afinal? Felicidade? O que é felicidade pra nós mesmo? Não sabemos, poxa! Não dava pra fazer uma pergunta mais fácil, não? Sacanagem pô!
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Bauman, falando sobre satisfação também, trata do consumo material: "Qualquer caminho que satisfaça os desejos e que não esteja ligado a compras e lucros é amaldiçoado." Mais nada a declarar, né?

E aí que, na aula de hoje, o professor aparece com um tal de Gilles Lipovetsky falando da Sociedade da Decepção. Sobre o consumo, Lipovetsky diz à Istoé, em maio de 2007: "Depois dos anos 60, desenvolveu-se a ideia de que o consumismo cria a decepção porque mostra o que você não vai ter. Ou que você seria forçosamente frustrado porque, quando tem uma coisa, já sonha com outra, como se isso levasse a pessoa a uma decepção permanente." Parecido com o que falei acima né? Somos não somente a Sociedade da Decepção de Gilles, mas a sociedade da insatisfação.
E quem cria tudo isso? A mídia, como sempre. A mídia cria um estereótipo que nós, seres tolos, queremos seguir mesmo sabendo que é um mito. Queremos que a TV seja nosso espelho. Queremos ser o reflexo daquelas páginas de revista, Internet ou jornais. Então compramos a marca pra nos aproximarmos da imagem-status a que ela remete. E quando percebemos que nunca seremos aquilo, nos decepcionamos.
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Outra parte interessante da entrevista de Lipovetsky sobre as fontes de decepção é quando ele fala das pessoas que se qualificam numa área e que trabalham em outra. Há pouco, eu soube de uma amiga da minha mãe que é graduada em Pedagogia, mas que está trabalhando como faxineira. Resignação? Talvez. Ou será revolta por cansar de lutar em vão? Acontece que ela foi lá, terminou o colégio, recebeu seu diploma pra ser alguém na vida e ter sua satisfação pessoal garantida, exerceu a profissão, parou um pouco pra se dedicar à família, se separou do marido e, por estar "velha demais", não conseguiu ser recolocada no mercado mesmo com a experiência nas costas e o diploma não mão. O canudo não serviu pra nada, a não ser pra piorar a decepção, pois se ela não o tivesse a desolação não seria tanta. Agora cai o diploma de Jornalismo. Não preciso mais de canudo pra ser Jornalista, mas vou seguir na universidade até o fim. Teimosia? Talvez. Revolta? Sim. Já sou Jornalista e ponto. Mas quero dar a cara a bater mesmo assim porque acredito que a boa formação é o que conta. Além do mais, vida sem aventura não tem graça. Se enfiarem meu canudo na bunda, tanto faz, eu vivo na Sociedade da Decepção de Gilles mesmo e, ao menos, estou consciente de que isso pode acontecer. Pior é a dor daqueles que não imaginavam essa possibilidade. "É a vida". Resignação? Não. Eu quero mais é viver, com altos e baixos, mas viver intensamente e consciente de que a vida é cheia de surpresas bem previsíveis e nada justas. A vida é um jogo, com regras que podem ser facilmente e frequentemente quebradas.
P.S.: Caso algum psicólogo venha a ler isto e, ao fazê-lo, ache tudo uma merda pensando que não entendi porra nenhuma das ideias dos caras e que só falei idiotice, eu advirto que ele pode estar certo (afinal, não li nada deles além dessas entrevistas, apesar da vontade de ler que me deu). Entretanto, me identifiquei à minha maneira com algumas frases e, como tenho necessidade de escrever, o que me resta é pedir desculpas pelas possíveis gafes e dizer que estou aberta à correções.

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