28 de nov de 2009

De mãos dadas com a Nova Literatura


Juntos há dois anos e oito meses, Jana Lauxen e Afobório, além do amor que sentem um pelo outro, tem mais um amor em comum: o amor pela literatura. Ambos fazem parte da nova geração de escritores gaúchos oriunda da Internet. Jana é autora do livro Uma Carta por BenjaminCafé Espacial, de São Paulo, e do Jornal Vaia, de Porto Alegre, editora da revista virtual 3:AM Magazine Brasil - versão brasileira do site inglês 3:AM Magazine - e também uma das idealizadoras do projeto já desativado E-Blogue.com, cujo objetivo era revelar talentos da Internet. Também é organizadora, ao lado do escritor Frodo Oliveira, da coletânea de contos policiais Assassinos S/A (Ed. Multifoco), que já está em seu segundo volume. Já Afobório, pseudônimo de Alexandre Durigon, lança ainda esse ano seu primeiro livro solo pela Multifoco, Livre para ser preso. Afobório também escrevia no E-blogue e, atualmente, pode ser lido no Beco do Crime, no jornal O Caiobá, no 3:AM Magazine Brasil e no Blog Cabeças Cortadas. Ambos além do livro solo, já publicaram em antologias ou coletâneas.

Confira abaixo uma entrevista enriquecedora com os autores feita especialmente para leitores, escritores e aspirantes a carreira literária.

Como surgiu teu amor pelos livros?

Jana Lauxen: Desde que meus pais liam histórinhas para mim, quando eu ainda não sabia ler. Depois, quando conheci os gibis e as histórias em quadrinhos, passando pela fase escolar em que fui apresentada para a boa e velha Coleção Vaga-Lume.

Afobório: Eu sempre fui o menino estranho, magro, alto, orelhudo e feio. Digamos que ser pop nunca foi meu forte. O jeito foi alimentar meu cérebro. Outro fato relevante foi minha saúde. Quando eu tinha oito anos, fui abatido por uma violenta crise reumática e passei um bom tempo sem andar. Então meus pais compravam “quilos” de fitas K7 com estórias, discos e um monte de livros. Eu tinha de me ocupar para manter a cabeça e o coração sempre saudáveis. Aí começou tudo.

Lembra qual foi o primeiro livro que leste?

(Ed. Multifoco), colunista da revista independente Jana Lauxen: Não lembro. Mas posso citar alguns que marcaram muito minha infância e pré-adolescência enquanto leitora: O Escaravelho do Diabo, de Lúcia Machado de Almeida e A Morte Tem Sete Herdeiros, de Stella Carr e Ganymédes José. Além de todos os gibis da Turma da Mônica, claro.

Afobório:
Branca de Neve e os Sete Anões.
Qual o estilo literário que mais desperta teu interesse?

Jana Lauxen: Gosto pra caramba de romances (especialmente os sem romance), e de contos. Mas não dispenso nada, desde que seja capaz de me aprisionar.

Afobório: Aqueles que são bem escritos. Mas gosto bastante de literatura policial, suspense e terror.

Como tu descobriste tua aptidão para a escrita?

Jana Lauxen: Quando vi que era a única coisa que eu sabia fazer mais ou menos bem. Aos 16 anos, eu acho.

Afobório: Eu sempre gostei de ler, mas quando li Um conto de Natal, do Charles Dickens, percebi que criar e contar uma boa estória é a maior coisa que um homem pode fazer.

Com que idade escreveste tua primeira história? Qual era o enredo?

Jana Lauxen: Não foi minha primeira história, mas me lembro bem deste episódio: quando eu estava na quarta série, escrevi uma redação sobre uma mulher infectada pelo HIV. Me chamaram na secretaria para conversar com uma psicóloga depois disso (risos). Mas o meu primeiro livro, Flores no Deserto, comecei a escrever com 19 anos e terminei com 21. Conta a história de uma menina cuja família vai à falência. Para manter seu alto nível de vida, ela acaba se envolvendo com o tráfico de drogas e se torna a primeira mulher no Brasil a chefiar uma quadrilha de tráfico internacional.

Afobório: Eu fazia parte do time dos que tinham um diário. Mas a partir dos vinte anos é que criei coragem e comecei a investir em meus escritos. Outro fato importante para a evolução da minha escrita foi a chegada da Internet, porque fiz um blog e as pessoas começaram a comentar meus textos e dizer que gostavam do eu escrevia e tal. Falavam que eu levava jeito para a coisa, eu acreditei neles e cá estou.

Quando de fato tu te consideraste a(o) escritora(o) Jana Lauxen / Afobório?

Jana Lauxen: Quando participei da minha primeira coletânea (Vide-Verso, poesia, Ed. Andross) junto com outros autores, no início de 2008. Mas a verdade é que quem define quem é e quem não é escritor, é o público leitor. E para isso nem publicação impressa é preciso ter. Na minha opinião, quem possui um blogue bastante lido, por exemplo, pode sim se considerar um escritor.

Afobório: Em 2008, quando fui classificado para uma antologia de contos, chamada Réquiem para o Natal. Foi minha primeira publicação. A partir daí ganhei confiança e a coisa começou a andar com mais maturidade e profissionalismo.

Fale um pouco sobre a arte de escrever para você.

Jana Lauxen: Eu gosto de história. O mocinho não precisa viver feliz para sempre, nem o vilão precisa ser punido no final, nem precisa ter uma linda história de amor entrecortando tudo isso, mas precisa de um enredo interessante. Não gosto do estilo querido-diário que existe e vende aos montes nas prateleiras de livrarias de todo país. Não me interesso em saber quantas vezes por semana você faz sexo, nem se usa drogas, nem se está apaixonada por um cara que só quer te comer. Logo, não escrevo sobre isso nem busco imprimir minha vida pessoal nas histórias que escrevo. Penso que o escritor precisa ter o poder da invenção, da imaginação. Precisa saber colocar no papel histórias que não pertencem a ele. Este é, para mim, o grande mérito do escritor: escrever sobre o que não viveu e, enquanto escreve, viver e sentir como se tivesse, de fato acontecido.

Afobório: Escrevo coisas que vejo e encontro nas pessoas. Acredito que as estórias que desenvolvo têm um bom fundo de verdade. Se você prestar atenção na sua volta, verá que o que não falta são bizarrices. O mundo é feio, mas a maioria das pessoas reluta contra isso e o pintam de bonito para disfarçar as coisas que incomodam e envergonham a sociedade, como a violência e a crueldade. Mas eu vejo as coisas por outro lado. É por isso que exploro o lado negativo do ser humano. Acredito que precisamos assumir nossos erros primeiro para que possamos acertar depois.

Como foi a caminhada até a publicação do teu primeiro livro?

Jana Lauxen: Foi uma longa e divertida caminhada. Quando terminei meu primeiro livro, o Flores no Deserto, imaginava que o enviaria para grandes editoras que se estapeariam para publicá-lo, que eu viraria uma best-seller, teria uma adaptação para o cinema e apareceria no Programa do Jô. Era ainda aquela velha idéia do glamour que envolve algumas profissões e que nunca se concretiza por ser fantasia. O escritor trabalha pesado, especialmente se for um escritor iniciante. Então levei uma seqüência de nãos, das maiores até as menores editoras, e já começava a guardar alguns níqueis para pagar pela minha primeira publicação quando apareceu a Multifoco. Não senti ansiedade quanto à opinião dos leitores porque, realmente, acreditava na história surreal de Benjamin. A conquista de mais leitores se deu e vem se dando graças a querida, amada, idolatrada, salve, salve Internet, que possibilita que gente lá em Maputo, capital de Moçambique, tenha acesso aos meus escritos. E o retorno é maravilhoso. Duas pessoas já me escreveram dizendo que Uma Carta por Benjamin foi o primeiro livro que elas leram na vida, e que adoraram. Qual elogio pode ser maior que esse?

Afobório: Meu primeiro livro, Livre para Ser Preso, será lançado somente em dezembro deste ano, então ainda não posso responder algumas das questões levantadas. Mas foi difícil, e acho que a minha maior dificuldade foi aprender a escrever para os outros. Muita gente escreve, no entanto, a maioria escreve para si mesmo, e a literatura é feita para leitores e não para autores.

Como tu vês o cenário literário gaúcho e brasileiro para os novos autores?

Jana Lauxen: O cenário literário gaúcho é um dos mais ricos do país, empatando, talvez, com o mercado paulista e carioca. Tem muita gente nova escrevendo, criando, publicando. É uma efervescência literária incrível. Espaço sempre haverá para quem é bom, por mais que demore ou seja difícil. Leitores também têm, aos montes, e a Internet vem arraigando cada vez mais, pois pessoas que nunca leram nem bula de remédio ou horóscopo, lêem blogs e, automaticamente, lêem os livros destes blogueiros, quando são publicados ou disponibilizados em formato de e-book. Já as editoras, é claro, as de grande porte, estão mais interessadas em publicar escritores estrangeiros e/ou já consagrados, sobrando pouco ou quase nenhum espaço para o jovem escritor. No entanto, existem muitas editoras pequenas ou por demandas que abrem espaço sim para quem está começando e, caso não abram, sempre haverá a possibilidade de pagar para publicar, o que acho muito digno.

Afobório: Olha, acho que quando você tem algo a dizer alguém vai publicar o que você escreve mais cedo ou mais tarde. O maior problema que percebo é que os autores pensam que seu primeiro livro já é o melhor livro do mundo, e não se trata disso, todos precisamos vestir a camisa da editora e trabalhar. Escrever é um trabalho como outro qualquer. E depois, a WWW é um canal que te coloca dentro de uma editora rapidinho, é só saber usá-lo. Acho que o primeiro passo para quem quer escrever é fazer um blog. Através dele você vai conhecer um monte de gente e, com o passar do tempo, você vai aperfeiçoar o que escreve. Outra dica: perca a vergonha, mande o link do seu blog para todos os lugares possíveis. É como ganhar na loteria: para ser um felizardo, você precisa arriscar. E participe de todos os concursos literários que puder. No mais, é só manter a humildade e o afinco que as coisas virão sempre no tempo certo.

Como tu vês a crítica aos escritores blogueiros?

Jana Lauxen: Acredito que a Internet incomoda porque é democrática. E a democracia permite que todas as pessoas, independente de suas intenções, encontrem espaço e eco para dar vazão a sua voz. Tem muito lixo publicado na Internet? Tem, muito. Mas e por acaso não tem muito lixo publicado em livros, jornais, revistas, outdoors? Lixo tem por tudo, e até mesmo a definição do que é bom ou ruim varia de pessoa para pessoa. Além do mais, prefiro que todos tenham espaço do que ninguém. E digo mais: independente do que estes conservadores literários digam ou pensem ou façam, a Internet é boa, veio para ficar e nada, eu disse nada, vai mudar este quadro.

Afobório: Existe lixo em qualquer lugar. Escritor é quem escreve, não é uma questão de veículo e sim de qualidade. E depois, a WWW é uma forma de promulgar cultura, mas as pessoas são estranhas, reclamam para comprar e reclamam para consumir de graça. Acho que o importante é saber filtrar.

Está havendo uma febre de novos escritores incentivada justamente pelo uso da Internet? Há qualidade? Há mais escritores que leitores? Isso preocupa?

Jana Lauxen: Gente que nunca imaginou escrever na vida está encontrando na rede espaço para publicar. Se há qualidade, varia muito, e depende também do gosto do leitor. Se há mais escritores que leitores? Creio que não, mas talvez o número se equipare, pois muita gente que escreve na Internet também lê nela, o que de maneira alguma é motivo para preocupação. Isso é coisa de gente que gosta de elitizar qualquer manifestação de arte, e a Internet veio para popularizar. Quem não gosta do popular, claro que não vai gostar da Internet, e vai encontrar mil motivos para desvalorizá-la, torná-la inferior, desmerecê-la.

Afobório: Acho que estamos num momento onde se tem acesso a muita informação, então é natural que haja uma explosão na produção também. O fato é que ninguém agradará a todos. Como disse o Raulzito “Cada um de nós é um universo”. Para resumir, acho que tem muita gente escrevendo, muita gente lendo e não me preocupo: a literatura precisa ser democratizada.

Qual o grande diferencial da tua geração?

Jana Lauxen: Diversidade. Se você pegar dez autores contemporâneos e ler suas obras, vai ficar besta com a imensa disparidade de temas abordados, técnicas de escrita, estilos literários.

Afobório: A marginalidade; escrevemos com força.

Qual a maior dificuldade que um jovem autor enfrenta pra entrar no mercado?

Jana Lauxen: A maior dificuldade é vencer o próprio ego. O mercado está aí, de portas abertas: as editoras oferecem espaço, os leitores querem ler, tudo está a favor. Quando me pedem: ‘Jana, dá um conselho aí para os novos escritores’, eu respondo: não acreditem que vocês são o Fernando Pessoa. Parece ridículo, e é, mas de fato é o maior problema para quem está começando (e também para quem já começou): o ego.

Afobório: Divulgação.

O que um novo autor precisa pra conquistar seu público?

Jana Lauxen: Persistência, paciência e boa vontade. Se escrever bem, melhor ainda.

Afobório: Estilo, um pouco de talento e muito trabalho. Com essas coisas a sorte chega até ele.

Que conselho tu dá pra quem quer tentar a carreira literária?

Jana Lauxen: Primeiro: leia muito, escreva muito e não caia na cilada de pensar que você é genial. Depois crie um blogue e apresente seus escritos para outras pessoas lerem, além do seu pai, da sua vó e do seu melhor amigo. Não aceite desaforos, mas aceite, agradecido, críticas produtivas. Saiba que a literatura não é uma carreira glamourosa, e que você vai trabalhar bastante e ganhar muito mal. Saiba também que, no início, vai precisar vender seus livros, e talvez precise até pagar para publicar, e que isso não é feio, nem errado, nem motivo para vergonha, muito pelo contrário. Participar de coletâneas junto com outros autores é super bacana, e conheço muitos escritores maravilhosos que começaram assim. E, repito: dieta nesse ego. Não existe talento nem sorte que salve uma pessoa de sua própria arrogância.

Afobório: Como eu disse antes, faça um blog, trabalhe e nunca desista.

Ping Pong
Jana Lauxen

Um livro: Capitães de Areia, de Jorge Amado.
Um autor: Fabrício Carpinejar.
Uma frase: “A literatura é a melhor maneira de ignorar a vida”, Fernando Pessoa.
Uma inspiração: Transpiração.
Ler é: Delirante.
Escrever é: Manter a sanidade mental.
Viver é: Bonito.
http://www.janalauxen.blogspot.com/
Ping Pong
Afobório


Um livro: Trilogia Suja de Havana.
Um autor: Pedro Juan Gutiérrez.
Uma frase: Sorte, luz e sangue, sempre.
Uma inspiração: Realidade.
Ler é: Andar.
Escrever é: Foder.
Viver é: Escrever.

http://www.afoborio.blogspot.com/

Link da matéria editada no site Universo IPA:
http://metodistadosul.tempsite.ws/universoipa/index.php?option=com_content&view=article&id=415:nova-literatura&catid=32:cultura&Itemid=37

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