1 de set de 2010

A capa página virada uma vida roubada



Há uns anos, quando comecei o curso de Jornalismo, eu devorava páginas policiais. É, eu sei, é meio estranho mesmo. Mas acreditem, ao contrário de muitos, eu até queria trabalhar nessa área. Ainda quero, se pintar a oportunidade, mas talvez em algo mais investigativo, que me permita mais literariedade, e menos rotineiro. Acontece que, naquela época nem tão distante, eu não me abalava com o que lia. Não me chocava, por mais horrível que fosse o caso. Pra mim já era normal ver todos os dias as mesmas barbariedades expostas nos jornais. Mudavam as personagens, mas as histórias eram as mesmas: “Garoto mata namorada por ciúmes”, “Padrasto estupra entiada menor de idade”, “Jovem morre após ter seu boné roubado”, “Confronto entre policiais e traficantes gera morte de civis inocentes por causa de bala perdida”, e assim por diante.
Mas certo dia percebi que eu era mais uma conformada errada da sociedade que, justamente por achar normal, não ajudava em nada na situação caótica do país. Não que agora eu possa fazer muita coisa, mas não aceitar e me manifestar sobre isso já ajuda. Só que sou 8, 80. E aí que da minha impassibilidade passei ao choque total. Hoje, quando leio, principalmente sobre latrocínios, inclusive choro. Pode beirar o rídiculo pra alguns eu chorar quando leio o jornal, ainda mais porque serei Jornalista e, portanto, não posso deixar que a emoção afete meu pensamento na hora do trabalho. Mas pensando bem, não é rídiculo, não. Se lerem com atenção cada linha e atestarem o absurdo que é uma morte por nada, vão me entender. Vai soar meio lugar comum o que vou dizer, mas pensem, poderia ser você, seu pai, sua mãe, seu irmão, seu amigo, seu marido, sua mulher. Tá, não choro por todas as linhas que constam nas páginas policiais, porque daí já seria doentio. Choro quando os casos são de extrema injustiça, mostruosidade ou acaso infeliz. Sei que vai soar meio preconceituoso o que vou dizer agora, mas vá lá, não choro ao ler as pequenas notinhas de mais uma morte pelo tráfico na região metropolitana. Sei lá, nessas pequenas notas não temos muita certeza de quem são as vítimas mesmo, se é que vocês me entendem.
É estranho, mas também choro quando resolvo cantar no chuveiro. Claro que não com qualquer música, né? Choro quando a letra me toca por falar da vida e da nossa luta diária pelo nosso lugar ao sol. Porque a brevidade da vida é meu maior dilema. Assim, entende-se que a causa do meu choro, seja nas canções ou nos jornais, é essencialmente a brevidade da vida. Ou seja, o acordar sem saber o que aquele dia me reserva realmente, se o início de um sonho, com a promoção no trabalho, o casamento…ou se o fim de um sonho, com uma bala perdida ou uma bala bem direcionada, mas sem razão de ser.
E, além do mais, chorar pelo outro que eu sequer conheço prova que, por mais objetiva que eu possa ser nas matérias que ainda irei escrever, estou muito próxima daquele de quem devo ter distanciamento enquanto escrevo. Porque por mais distante que estejamos, nossa realidade é a mesma, e a incerteza sobre o dia de hoje e o dia de amanhã, também é a mesma.

Um comentário:

  1. Se tu aceitas as considerações de um jornalista com pouquíssima experiência a mais que tu:

    1- Quase tudo o que é notícia é fruto de algum momento de emoção. Seja ela como for. O papel do jornalista é retratar a sociedade. Imparcial, mas deve ter emoção.

    2- "Mato" pessoas todos os dias. E já saí da redação beeeem mal de tanto relatar tragédias. É impossível não ficar estarrecido com tanta morte idiota que tem por aí. Putz, cada vida desperdiçada deixa qualquer um triste.

    3- Quando tu fores escrever matérias. Não te distancie. Faça exatamente o contrário. Se aproxime o máximo - claro, sempre procurando prezar pela imparcialidade - mas jornalismo bom é o que joga o leitor na cena.

    4- mas esquece esse papo de literariedade e menos rotineiro. Infelizmente, tudo é para anteontem. Jornalismo deixou de ser como antigamente. E isso afeta diretamente a qualidadade.

    beijão

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