13 de set de 2011

Contraditória

Já me acostumei a ouvir o eco dos meus passos solitários pela rua depois das onze da noite. Não tenho mais medo do escuro. Não olho pra trás temendo a sombra. Não olho torto um estranho. Não preciso que me esperem na esquina. Tenho casaco, guarda-chuva e a chave de casa. Tenho meus calcanhares e minha sorte.

Já me acostumei ao calor do meu corpo em noites frias, assim como aos meus pés gelados em manhãs quentes. Gosto de acordar na minha companhia quando não durmo abraçada enquanto nasce o dia.

Já me acostumei aos meus compromissos descompromissados e aos meus deveres empilhados. Às minhas saídas sem destino e ao meu destino aparentemente sem saída. Ao meu amanhã não planejado e ao meu hoje des(esperado). À minha cabeça leve e ao meu corpo pesado.

Já me acostumei a mim mesma. Aos meus impulsos. À minha sutileza. À minha rotina insana. Ao meu bem estar egoísta. Ao meu eu de todo mundo. À minha imagem no espelho. Ao meu dia sim, dia não. Ao meu sorriso sempre.

E então você chega, como quem não quer nada, já querendo mais do que posso dar, e me propõe cuidar de mim. Cuidar de mim? Que ousadia. Pegou minha mão como quem conforta. Me olhou fundo nos olhos e disse palavras doces como se eu fosse de louça. Com seu simples gesto romântico, me perdeu de vez, antes sequer de me ganhar. Retribuí soltando-lhe a mão, olhando pra baixo e dizendo que os seus olhos não sabiam ver através dos meus. Sinto muito, mas acho que me fiz entender. Não, não me fiz. São poucos os que me entendem. Sua aproximação simplesmente me afastou. Um gesto, uma decisão. Não foi culpa sua. Nem minha. Somos simplesmente opostos. Me julgue frágil e te julgo insensível em sua extrema sensibilidade.

Já me acostumei a não ter planos. Já me acostumei aos meus ideais. Ao meu ponto de vista. À minha realidade. À minha frieza e ao meu amor. À minha arrogância e ao meu bom humor. À minha ironia e ao meu falar porque preciso.

Opostos demais. Não creio mais nessa piada trivial. Não tenho mais paciência pra moldar nem ser moldada. Quero pronto. Igual. Sim, igual. Não quero ter que me explicar pra me fazer entender. Cansei das paredes ocas. Quero o complexo simples de descomplicar. A praça, o chimarrão, a cerveja, o bar, a filosofia, a cumplicidade, a lealdade e o mesmo chão. Não, o silêncio não. Me presenteie com o diálogo além-nós. Não quero precisar de ninguém. Mas quero querer mesmo sem precisar. No entanto, não tenho pressa. A pressa já me fez andar muito devagar quando eu realmente queria ir rápido. E nessa calmaria atual, tudo voa.

Enquanto isso, tem outro você, que não é como você e cuja companhia me faz o melhor de mim. Me enobrece, me deixa descalça, me protege, me acovarda, me encoraja, me reprime, me mostra minha alma que nem eu mesma consigo ver. Mas é só. Porque só sei ser só por enquanto. Acordo com a música baixa que ficou ligada à noite. Com o copo vazio. Com um aroma suave no ar. Com o sol na cara. E com o bom dia e o deixa pra lá.

E ‘até mais’ vou vivendo com medo do tempo voltar atrás. Ando me desculpando demais. Me afastando demais. Mas não seria preciso, porque ‘outro você’ me dá paz. Pra sempre talvez não, hoje talvez pra sempre. Ando me distraindo demais. E deixando raso o que merece ser profundo. Culpa minha. Desculpa sua.

Me acostumei a mim mesma rápido demais. E você, quem sabe, se acostumou a não se acostumar mais. E nesse desacostume acostumado, encaro a liberdade como aliada apaixonada. Mas a liberdade corre nas tuas veias e fica fácil me apaixonar. Mas também corre nas minhas veias, e fica fácil desapaixonar. Basta pouco pro meu desencanto. Sou assim... Me deixe passar que eu me deixo voar, longe, longe. Não tenho mais paciência, nem clemência. Não me prendo, nem me rendo tão facilmente. Sou não sei como. Só sei que sou o que amo ser. E posso compartilhar meu ser com você pra você também amar se quiser. E o encantamento prevalece e a gente escolhe como, mesmo sem escolher. Escolhe por mim? Não quero mais tomar decisões. Se for pra errar, que a escolha seja só sua. Não quero ter a culpa do meu erro. Porque eu já me acostumei a não me acostumar também. Me acostume logo ou deixe estar...


4 comentários:

  1. Uau amiga!!! ADOREI!! Me arrepiei em vários trechos, muito bom!

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  2. Muito bom...! Me sinto muito assim... Quase me vi em teu texto... Aliás, me vi... e muito. E é inquietante, isso.

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  3. Hummm... muito bom! Estamos ensaiando "Exercícios de Solidão". Teu texto encaixaria muito bem.

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