2 de jun de 2012

O começo do fim


Você já parou pra pensar que um dia você vai ficar velho e que esse dia pode chegar mais rápido do que você imagina? E que, de repente, você, que fazia tudo aquilo, pode perder a força nas pernas e não conseguir mais levantar sozinho? E que seu intelecto vai estar funcionando a pleno vapor, mas seu corpo não vai mais responder aos comandos do seu cérebro? E que você não terá lido todos os livros que queria, não terá assistido todos os filmes, viajado por todos os lugares e nem amado as pessoas e a vida o suficiente e, mesmo assim, já não estará mais em condições físicas ou mentais pra isso? Pois eu já parei pra pensar nisso muitas vezes. Deve ser porque convivo diariamente com meu avô que tem mais de 80 anos e porque vi meu outro avô ter que aceitar que estava ficando velho mesmo sem aceitar que a vida é finita. Penso nisso diariamente e pensar nisso me dói. Penso como uma velha em coisas do tipo: "É, não quero viver muito se for pra dar trabalho pros meus filhos. Não quero viver muito se eu me tornar um estorvo". Penso também em coisas como: "Não quero viver muito se não for pra viver muito bem". Isso sou eu pensando em mim velhinha. Mas eu, como neta e filha de futuros pais idosos sou egoísta e penso assim: "Não quero perdê-los, independente de como vão estar, oras". 

Pensar sobre a velhice é pensar sobre a vida. Portanto, pensem na velhice antes mesmo de vivê-la pra chegarem lá com a sensação de missão cumprida. Porque é a resposta que nos resta em um mundo de perguntas erradas. A gente nasce, cresce e morre. E qual o sentido disso tudo? Por que tanto trabalho pra acabar no final? Sempre escutei dizer que cuidar dos pais é uma obrigação dos filhos, afinal, nossos pais nos cuidaram desde o nascimento e o farão até que o papel se inverta. A diferença crucial reside no seguinte ponto: meus pais me cuidaram desde o meu nascimento me preparando pra vida; pra dar meus primeiros passos, falar minhas primeiras palavras, aprender a lidar com as desilusões da vida e me tornar uma mulher. Eu era um corpo frágil e fácil de carregar, de levantar, de por pra deitar, de ensinar. Eu me machucava e sarava logo. Eu não tremia minhas mãos nem minhas pernas e comia e tomava banho sozinha depois de uma certa idade. Eu era uma criança sendo preparada pra viver como adulta. Eu, filha, vou cuidar dos meus pais. Mas meu papel não será prepará-los pra vida, pois isso seus pais já o fizeram. Seu Joaquim e Dona Valda cuidaram do franzino Hermes pra que ele se tornasse o homem que hoje é. O marido, o pai, o genro, o tio, o filho, o irmão, o amigo. Seu Nelson e Dona Maria cuidaram da caçula Vera pra que ela se tornasse a mulher que hoje é. A esposa, a mãe, a nora, a tia, a filha, a irmã, a amiga. Mas eu, Tássia, e meu irmão, Bruno, cuidaremos dos nossos pais pra prepará-los pra morte. É pesado dizer isso, mas essa é a lei da vida: depois da velhice vem a morte, ao contrário do nascimento cuja vida nos aguarda. E então, quando esse dia chegar, vou dar todo o amor que não pude dar agora, ainda jovem, cheia de compromissos, amigos, sem tempo, sem dinheiro... E vou mostrá-los que viver valeu a pena e vai valer até o último suspiro se eles permitirem, independente de mágoas e dores. Esse é ciclo paradoxal sobre o qual as pessoas evitam pensar.

E quando meus pais não puderem mais caminhar, não terei forças pra carregá-los, pois não serão leves como quando eram crianças. Mas terei beijos, abraços, piadas, um plano de saúde bom, uma enfermeira e muito amor. E caminharei por eles o tanto quanto caminharam por mim e usarei todos os meios possíveis pra fazê-los sorrir e se sentirem felizes até o fim da vida. E quero ver meus pais morrerem velhinhos, se possível, com saúde. Apenas de velhice. Quero vê-los indo em paz, como foi meu avô Joaquim. Meu avô que até o último minuto quis viver, mas foi sorrindo e tendo a certeza de que foi muito amado por seus três queridos filhos e por seus três netos.

Já perdi minha avó Maria, que me ensinou que amor é disciplina e cuidado. Perdi meu avô Joaquim, que me ensinou o valor do trabalho, da coragem, da persistência, da sabedoria, da força, do amor e da paz. Ainda tenho meu avô Nelson, que amo incondicionalmente e que em poucos dias deixou de descer pro meu apartamento pra almoçar comigo todos os dias, pois não aguenta mais o peso em suas pernas. Meu avô que me ensina, mesmo sem perceber, as coisas mais valiosas da vida e que não tem um único substantivo que resuma, assim como o que ocorre com meus pais. E tenho minha avó Carolina, ou Valda, que raramente lembra que sou sua neta. A vó, hoje com Alzheimer, erra meu nome e me chama pra ir pro baile quando me vê. A vó que me ensinou a fé, não importa no que for, desde que habite em mim. Lá, minha dinda cuida dela. Aqui, minha mãe, cuida do vô. Lá e cá, são dores e amores.

E eu só peço sabedoria e calma pra encarar esse novo cenário do dia-a-dia. Esse sobe e desce diário da minha mãe pra ajudar o vô a comer, a tomar banho, a deitar, a se vestir. E seu retorno pra casa chorando de amor. De amor pelo pai. Chorando de dor, pois minha mãe, apesar de tão jovem, tem reumatismo e de tanto fazer força carregando um idoso forte que até poucos dias fazia musculação, sente em seus ossos as consequências. E quando a gente pensar que nada mais resta, sabemos que resta sim. Resta amor. Pois amor é o que nos faz fortes. 

Resolvi escrever porque é assim que libero minhas dores. Porque o teclado acaba sendo um saco de pancadas. Porque não vejo muita gente escrevendo sobre isso. Resolvi escrever porque escrevo e ponto. E porque certas dores não devem ser guardadas quando podem ser as dores de outras pessoas também. E porque sonhar não custa nada. Sonhar em chegar a algum lugar com palavras, em gerar reflexões. Só faço das palavras minha arma e meu escudo.

E que quando eu for velha, eu tenha ainda mais amor ao meu redor. Que eu sorria. Que eu sambe. Que eu cante. Que eu dance. Que eu escreva. Que eu leia. Que eu viva. 

Que eu viva intensamente nem que seja pra morrer de amor à vida.

Como se Morre de Velhice

Como se morre de velhice 
ou de acidente ou de doença, 
morro, Senhor, de indiferença. 

Da indiferença deste mundo
onde o que se sente e se pensa 
não tem eco, na ausência imensa.

Na ausência, 
areia movediça onde se escreve igual sentença 
para o que é vencido e o que vença.

Salva-me, Senhor, do horizonte sem estímulo
ou recompensa onde o amor equivale à ofensa.

De boca amarga e de alma triste 
sinto a minha própria presença 
num céu de loucura suspensa.

(Já não se morre de velhice nem de acidente nem de doença, 
mas, Senhor, só de indiferença.)
Cecília Meireles, in 'Poemas (1957)'

3 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Daniel Chaves03/06/2012 03:19

    Lindo, Tássia. Que o amor tome conta

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  3. Tenho tanto a comentar que prefiro apenas lhe dizer parabéns para não render,já que costumo empolgar com as palavras :D .Muito bom o seu texto,amei!!

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