13 de jun de 2012

O dia em que me tornei Jornalista

Eu devia ter feito esta postagem faz tempo, até porque alguns colegas me pediram, mas sabem como é, tempo é uma palavra que está sempre de mal comigo. Pois bem, finalmente reatamos e cá estou eu postando. 

No dia 25 de fevereiro de 2012, sambando ao som de Bebeto Alves, fui pegar meu diploma. Nessa noite, finalmente me formei em Jornalismo, após incríveis sete anos, ao invés dos quatro habituais. Mas acredito que os sete anos me deram sorte. Fiz menos cadeiras sim, mas isso significou muito mais. Mais tempo de faculdade, é claro. Mas, acima de tudo, mais amigos, mais contatos, mais estágios, mais empregos, mais aprendizado e mais recordações. Acredito que foi o tempo certo. O tempo e a escolha certa. Ser jornalista pra mim é ser eu mesma. Ser jornalista é mais que uma profissão, é uma filosofia de vida da qual sou adepta convicta. 

Sou muito grata por tudo que conquistei nesses sete anos. Me descobri e descobri algumas das pessoas mais importantes da minha vida. Acho que todo mundo que me conhece já ouviu ou leu esse blá blá blá em prol da minha profissão. E já ouviram o lado ruim também. Mas todas as profissões tem prós e contras. E, pra mim, ao menos, loucura é estudar anos aquilo que a gente não gosta só pensando em dinheiro, pra no futuro ganhar bem - nem sempre - e não trabalhar com prazer. O trabalho ocupa em média 8hs por dia de uma pessoa. Calculem o tempo da vida que vocês passam trabalhando. Pois bem, eu calculei e, por isso, optei por uma profissão que me faça bem. Vocês trabalham olhando no relógio? Eu não.

Acho que consegui expressar melhor meu sentimento em relação ao Jornalismo durante o meu discurso de formatura. Me senti honrada em poder falar em nome de todos os colegas e amigos que comigo se formaram. E acho que através do que escrevi e li, consegui - ou ao menos tentei - dizer o que nem sempre conseguimos explicar. Aos meus colegas peço desculpas por não ter postado antes. E agradeço por fazerem parte da minha vida há sete anos e daqui pra frente.




Discurso
25/02/12 - Teatro do Bourbon Country

Boa noite, agora são oito horas e vinte minutos. Estamos, ao vivo, diretamente do Teatro do Bourbon Country, em Porto Alegre, para fazer a cobertura completa de um evento muito esperado por dezenas de jovens. Mais de mil pessoas estão no local para acompanhar a formatura de Jornalismo desses estudantes aqui reunidos...

Pois é, hoje é o nosso dia, portanto, câmeras, virem-se para nós. Hoje não queremos entrevistar, escrever, gravar, nem editar. Hoje, nós somos a notícia. Mas só hoje. Pois, a partir de então, nossa missão será levar a todas as pessoas o que acontece no mundo todos os dias. Mas agora vamos aos fatos...

Aposto que vocês, pais, irmãos, amigos e namorados consideram as pessoas que estão se formando aqui em cima bem singulares. Pessoas entusiastas e cheias de características marcantes, não? Ser jornalista tem muito a ver com o perfil. Não é qualquer um que segue esta profissão. Na verdade, nós não escolhemos o Jornalismo, ele é que nos escolhe. 

Por que Jornalismo? Esta pergunta volta e meia é feita a nós em entrevistas de emprego ou em conversas de bar. E a resposta é quase unânime: “Porque não me imagino fazendo outra coisa”. Os pais justificam a escolha de seus filhos de várias formas: “Ah, fulaninho era falante, sem vergonha e metido desde pequeno”. Faz sentido. Ou ainda: “Minha filha sempre foi uma nerd, não tinha uma coisa que eu contasse pra ela que ela já não soubesse mais e melhor que eu”. “A mana sabia tudo que acontecia no mundo enquanto o mano nem sabia o que ia cair na prova”. “Ah, ele falava demais, escrevia demais, lia demais, era todo excessos. O menino tinha que transbordar de alguma maneira”. É, realmente, o Jornalismo é feito de excessos, pois só pessoas cheias de conteúdo poderiam se tornar jornalistas. 

E ninguém estava errado. Nosso caminho já estava traçado. E já que estamos entre amigos podemos deixar bem claro que não escolhemos nossa profissão pelo salário. Na verdade, preferimos não pensar muito nele. Até porque, este é um dos motivos pra alguns familiares sorrirem amarelo quando contamos a nossa escolha na época do vestibular. “Uma menina tão inteligente, deveria fazer medicina, na Federal”. “Um rapaz tão esperto e persuasivo, podia ser advogado”. É, quem sabe, poderíamos sim. Mas não queríamos. Assim, ignoramos os contras e demos a cara pra bater. 

Mas não sejamos tão injustos. Qual de nós nunca ouviu palavras de incentivo de uma tia como: “Hmm, vou te ver na Globo, heim?”. Sorrisinho cínico em retribuição e um ‘obrigada’. Infelizmente as pessoas não sabem que Jornalismo não se resume à bancada do Jornal Nacional e quem nem todos têm esse sonho. Paciência.

Talvez nunca entendam nossa escolha, mas não custa tentar explicar. Quando escolhemos ser jornalistas, sabíamos que não ia ser fácil. Sabíamos que o mercado estava saturado, que o salário era baixo, que o trabalho era muito e que as oportunidades eram poucas. Mas mesmo sabendo disso tudo, nós continuamos. E por quê? Pelo simples fato de que é isso que sabemos fazer. Porque temos amor às palavras, às imagens, aos sons, e ao conhecimento. Porque queremos ser os primeiros a saber e os primeiros a contar. Queremos interferir socialmente, levando informações a todos os cantos e defendendo direitos de quem, às vezes, nem sabe que os tem. Queremos tudo... tudo ao mesmo tempo. Saber tudo sobre pouco não nos basta, queremos o contrário, saber de tudo um pouco. Resumindo, não queremos que nada aconteça no mundo sem que possamos saber, opinar e compartilhar. 

Podem nos julgar, mas sabemos o nosso valor. Se a história existe, é porque algum jornalista compartilhou a informação que obteve ou porque presenciou um fato e o reportou. Muitos nos julgam arrogantes. Compreensível, afinal, o poder que podemos ter na sociedade é talvez imensurável. E cabe a cada um de nós, agora profissionais, termos consciência de como iremos usufruir desse poder que nos é dado. Sabemos que fazemos a diferença. Podemos divulgar o certo e o errado. Influenciar comportamentos. Denunciar ilegalidades, violência. E quem diria, às vezes até damos notícias boas. Somos os olhos, os ouvidos e a voz do povo. Somos temidos na mesma medida em que somos prestigiados. Somos aqueles que trouxeram e continuarão trazendo a verdade à tona, independente de permitirem ou não. Enfrentamos censuras, interesses políticos e, gostem ou não, muitas vezes vencemos tudo isso. Somos jornalistas, afinal de contas.

E é por causa disso tudo que posso afirmar, por todos nós, que valeu cada minuto. Os quatro anos ou mais, os estágios, os trabalhos, as provas, a monografia, o TCC, os projetos, as matérias... O tempo, as noites em claro, o stress, o dinheiro curto, a motivação, a alegria e o prazer. Valeu pelos professores, pelos amigos, pelas festas, pelo conhecimento e, acima de tudo, pelo problemático diploma. Que, diga-se de passagem, não foi obstáculo para chegarmos até aqui. 

Só nós, agora finalmente jornalistas, sabemos a relação de amor e ódio que temos com nossa profissão. Aprendemos muito mais do que comunicação, aprendemos o valor do coleguismo, o nosso papel social e os melhores bares e botecos da cidade e suas respectivas cervejas. Sim, porque jornalista que se preze conserva as tradições das velhas redações e faz um brinde à boemia para celebrar a vida. As melhores ideias e as melhores amizades nasceram nesses encontros em meio a copos, polentas e batatas fritas.

Agradecemos a todos aqui presentes por fazerem parte dessa conquista, em especial à nossa família. E agradecemos também a nós mesmos. Pois se não fosse o nosso esforço, não estaríamos aqui hoje. Ignoramos quaisquer comentários avessos ao Jornalismo, ralamos, abdicamos, mas chegamos aqui. E é exatamente aqui que queríamos estar. E mesmo convictos do orgulho que damos a vocês neste momento, acreditem, o orgulho que sentimos por nós mesmos é ainda maior.

E como já disse John Lennon: “Você pode dizer que sou um sonhador, mas não sou o único”. Ficamos por aqui e voltamos a qualquer instante com mais informações. Uma boa noite a todos.

2 comentários:

  1. Ba! Mas que bom, ficou esse teu discurso ein...
    Não te conheço, nem tu me conheces, apenas, eu, estava passando por blogs e avistei o teu.
    Uma maravilha!
    Meu nome é William, eu tbbm quero muito ser jornalista, mas ainda estou na dúvida em: Publicidade.
    Abraço! Curti muito o teu blog.

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  2. Toheá Ranzetti10/12/2012 02:03

    Oi, agora são uma hora da manha, e minha formatura é semana que vem de jornalismo. Tenho 20 anos, e resolvi fazer uma homenagem aos alunos da minha sala preparando um discurso. Há exato um mês atras, internei com uma forte de cabeça (faltando menos de 2 meses para formatura), e fiquei o mês de novembro todo no hospital, fazendo e refazendo exames, tomando milhares de remédios, pois não descobriam o que eu tinha e tenho. hoje faz uma semana que voltei a trabalhar, e mesmo assim não melhorei. Apresentei a minha monografia no maior sacrificio, meu e de minhas colegas de grupo, mais tive a compreensao dos professores e principalmente de minha orientadora, que me apoio e que viu minhas dificuldades para estar ali junto de minhas colegas. Nossa monografia foi um sucesso, só tivemos elogios, ao apresentar me emocionei e chorei, por tudo que estava passando. Faltando essa uma semana, entre exames médicos, consultas e preparação de vestido e cabelo, eu estou vivendo, ao ler este discurso agora, chorei e senti um aperto pois você simplesmente descreveu tudo o que eu queria expressar. Gostaria muito de poder lê-lo em minha festa, pois alem de admirar, quero que as pessoas sintam essa sensação que eu senti ao ler. Parabens! Tenho mais orgulho ainda de ser jornalista! Beijos

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