10 de jun de 2012

Poesia visceral

Após terminar a leitura do livro "O amor é um cão dos diabos", daquele velho safado e genial chamado Charles Bukowski, resolvi reproduzir trechos de alguns de seus poemas, em especial dos que integram a parte 1 do livro, intitulada de "mais uma criatura atordoada pelo amor" e da parte 2, "eu, e aquela velha: aflição". Pra mim, isso sim é que é poesia. Poesia visceral! Do jeito que eu gosto...




"está sempre alta
 em sapatos de salto
 espírito
 boletas
 trago

 (...)

 Sandra pode partir provavelmente o coração de um homem
 espero que ela encontre um". (Sandra)

*

"outros olhos
 outro cabelo
 outros
 pés e dedos.

 todos à procura
 a busca eterna". (Outra cama)

*

"ela não faz
 nada fora do
 comum.

 queria apenas que ela
 fizesse". (Encurralado)

*

Como ser um grande escritor

"apenas beba mais cerveja
 mais e mais cerveja

 (...)

 não exagere no exercício.

 durma até o meio-dia.

 evite cartões de crédito
 ou pagar qualquer conta
 no prazo.

 lembre-se que nenhum rabo no mundo
 vale mais do que 50 pratas
 (em 1977)

 e se você tem a capacidade de amar
 ame primeiro a si mesmo
 mas esteja sempre alerta para a possibilidade de uma
 derrota total
 mesmo que a razão para essa derrota
 pareça certa ou errada

(...)

 fique longe das igrejas e bares e museus,
 e como a aranha seja
 paciente-
 o tempo é a cruz de todos,
 mais o exílio
 a derrota
 a traição

todo este esgoto.

fique com a cerveja.

a cerveja é o sangue contínuo.

uma amante contínua.

(...)

beba mais cerveja.
há tempo.
e se não há
está tudo certo
também".

*


Sozinho como todo mundo 

"a carne cobre os ossos
e eles colocam uma mente
ali dentro e
às vezes uma alma,
e as mulheres quebram
vasos contra as paredes
e os homens bebem
demais
e ninguém encontra o par ideal
mas seguem 
na procura
rastejando para dentro e para fora
dos leitos.
a carne cobre
os ossos e a
carne busca
muito mais do que mera
carne.

de fato, não há qualquer
chance:
estamos todos presos
a um destino
singular.
ninguém nunca encontra
o par ideal.

as lixeiras da cidade se completam
os ferros velhos se completam
os hospícios se completam
as sepulturas se completam

nada mais
se completa".



"as pessoas precisam de mim. eu as
 completo. se não podem me ver 
 por um tempo ficam desesperadas, ficam
 doentes.

 mas se as vejo muito seguido
 eu fico doente. é difícil alimentar
 sem ser alimentado". (Chopin Bukowski)

*

"e você me inventou
 e eu inventei você
e é por isso que nós não
damos
mais certo". (Camas, banheiros, você e eu...)

*

"é o mesmo que antes
 ou que da outra vez
 ou da vez anterior a essa.
 eis um pau
 e eis uma boceta
 e eis um problema.

 a cada vez 
 você pensa
 bem eu aprendi desta vez:
 vou dizer a ela que faça isso,
 e eu farei isto, 
 já não quero a coisa toda, 
 só um pouco de conforto
 e um pouco de sexo
 e apenas um mínimo 
 de amor". (Isso então)



"há tamanha solidão no mundo
 que você pode vê-la no movimento lento dos
 braços de um relógio.

 pessoas tão cansadas
 mutiladas
 tanto pelo amor como pelo desamor.

 as pessoas não são boas umas com as outras
 cara a cara

 os ricos não são bons para os ricos
 os pobres não são bons para os pobres.

 estamos com medo.

 nosso sistema educacional nos diz que
 podemos ser todos
 grandes vencedores.

 eles não nos contaram
 a respeito das misérias
 ou dos suicídios.

 ou do terror de uma pessoa 
 sofrendo sozinha
 num lugar qualquer

 intocada
 incomunicável

 regando uma planta.

 as pessoas não são boas umas com as outras 

 (...)

 suponho que nunca serão.
 não peço para que sejam.

 mas às vezes eu penso sobre isso.

 (...)

 tem que haver um caminho.

 com certeza deve haver um caminho sobre o qual ainda 
 não pensamos.

 quem colocou este cérebro dentro de mim?

 ele chora
 ele demanda
 ele diz que há uma chance.

 ele não dirá
 'não'. (O estouro)


* Foto: Alan Passero

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