29 de out de 2013

O diário



Era quase meia-noite no velório da minha avó paterna, quando a sua cuidadora me perguntou se eu já havia feito o ‘diário’ da minha avó. Que diário? O diário com a história dela e uma mensagem. Demorei a entender. Teu primo disse que estava esperando tu chegar de Porto Alegre pra ti escrever. Tu consegue ler? Não tive muito tempo pra pensar. Só disse 'sim' pras duas perguntas.

E o tal do diário nada mais era que aquela mensagem que alguém lê ao início da missa após o velório e anterior ao funeral. Saí do velório e fui pra casa da vó, agora casa da dinda. Só que na vó não tinha papel nem caneta e, muito menos, um computador. A cuidadora me trouxe do velório aquele caderninho que fica na porta de entrada e no qual as pessoas que estiveram presentes no local assinam. Peguei as folhas detrás e ali escrevi. Fazia muito tempo que eu não escrevia a mão e sem direito à correção, tendo em vista que só tinha aquela folha. E, enquanto algumas pessoas estavam ao meu redor durante a madrugada, seja pra comer algo ou pra descansar antes de voltar ao velório, eu escrevia. Logo eu, que detesto escrever em meio ao barulho. E não era uma matéria pra revista ou pro site, não era uma postagem pro meu blog, não era um dos contos que guardo, e nem mesmo o discurso de formatura. Era uma mensagem pra alguém que acabara de partir pra ser lida em meio aos vivos que me ouviam.


Não saiu tão bom quanto eu gostaria, mas não me culpo, afinal, uma mensagem pra algum familiar que partiu nunca será boa o suficiente. Nunca conseguiremos dizer tudo que gostaríamos. Nunca se esgotarão as palavras que gostaríamos de ter escrito. E, nesse caso, cortes e edições não são aceitos, apenas acréscimos de frases e parágrafos. E faltou algo. Sempre falta. E não houve aplausos e nem nada. Apenas cabeças baixas e lágrimas nos olhos que já estavam presentes desde o começo. E essa, com certeza, foi a pauta mais difícil até agora. Nem mesmo a matéria que fiz com os meninos presos e com um fugitivo da FASE foi tão desafiadora. Nem mesmo escrever a primeira matéria em inglês. Nem mesmo ter que escrever mais de 10 matérias em um dia só. Nenhuma matéria relacionada a desconhecidos jamais será tão difícil quanto escrever sobre alguém tão próximo. Impossível manter a isenção e o distanciamento. Não era preciso ser jornalista para escrever, só era preciso ser neta.

Um comentário:

  1. Com certeza deve ter sido o texto mais difícil de escrever, pois nos faltam palavras para falar de pessoas cuja a passagem na Terra foi iluminada. Amiga não conheci a sua vó, mas conheço você e sei que você deve ter um pouco dela, então tenho certeza que onde ela estiver foi muito bem acolhida e passa agora a te proteger e a olhar por ti. Fica bem para que ela se sinta bem, tu sabe o que quero dizer. Bjo

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