5 de mar de 2016

Caímos numa cilada!

Há poucos dias, li um texto que foi um legítimo chute no traseiro. Falava do quanto nossa geração está perdida, achando o máximo trabalhar no que gosta, em uma empresa com um ambiente bem bacana para encher os olhos, e repleta de benefícios paliativos para disfarçar a falta de um plano de carreira e de uma remuneração justa para seus funcionários. Algo tão óbvio tal qual uma mosca chata pousando no nosso nariz e a gente incapaz de matá-la. Pois bem, durante a leitura olhei para a minha vida e para a vida das pessoas que me cercam e me dei conta do quanto isso é verdade.


A gente ganhou a liberdade de fazer o que ama, mas depois, como bem dizia a canção do Molejo, descobrimos que “não era amor, era cilada”. Batemos o pé porque queríamos ser das Humanas. Queríamos ser jornalistas, designers, publicitários, relações públicas, artistas e etc. E fomos. Mas caímos numa armadilha ao nos iludirmos pensando que um dia iríamos ser valorizados. Ao contrário, viramos escravos do nosso próprio “amor pelo que fazemos”. Amor bandido esse, né?


Todo mundo adora o mundo da informação e do entretenimento. Estão aí os jornais, as revistas, os livros, os filmes, as novelas, as redes sociais, o teatro, a TV por assinatura e seus vários reality shows e seriados que não me deixam mentir. Mas afora as celebridades, quem trabalha nos bastidores de tudo isso como repórter, jornalista, editor, revisor, tradutor, escritor, produtor gráfico, ator, dançarino, social media, designer, publicitário, produtor de conteúdo, e por aí vai, não é recompensado à altura por tudo que proporciona ao seu público fiel. Um trabalho é cobrado bem caro, mas o valor que quem produz recebe é bem baixo. É triste saber que muitas vezes somos nós comunicadores que levamos alegria para as pessoas, mas não damos um bom sorriso no final do mês ao ver o nosso contracheque.

É, estamos à beira de vender miçangas na praia como sempre brincam. Pelo menos ali nossos clientes pagam o que achamos que merecemos. Olhando para mim mesma, vejo que nem sei mais o que é vida pessoal devido ao excesso de trabalho. Para complementar a renda, preciso de mais que um trabalho. São oito horas no escritório, mais 3 horas a mais pós-expediente dedicadas as aulas de inglês que dou, sendo 2 h de aula e 1 h de preparação das aulas. Isso sem falar dos freelas. E existe opção de diminuir o ritmo e trabalhar menos? Não, não existe! As contas não diminuem. O valor da comida, por exemplo, só aumenta. E o salário? Esse nunca acompanha a inflação.

O vale-alimentação não visita o supermercado para ver o preço do tomate e o vale-refeição não vai a restaurantes já faz um tempo. O plano de saúde? Ah, esse as empresas raramente têm. Afinal, nem temos o direito de ficar doentes. Bóra trabalhar gripado, com dor de cabeça e o que for, a empresa tem remédio. E assim está todo mundo. Ninguém mais tem tempo para ver os amigos, para ir no cinema durante a semana, para ir a academia sem estar exausto... E, nos fins de semana, ainda precisamos achar um tempinho para terminar algo que ficou pendente.

Meus dois trabalhos são coisas que faço bem e que meus clientes gostam. E eu também gosto. Mas se parar para pensar, eu também gosto de ler um bom livro, de ver um filme ou um programa de TV, de relaxar me entretendo, sabe? Mas a que horas? E sabe qual a ironia de tudo isso? Que eu trabalho para entreter e informar as pessoas e com isso ganhar dinheiro e me sustentar e ainda ter um tempo de sobra para... me entreter e me informar. Que ciclo mais desinteligente, não? E no fim das contas, só para piorar o quadro, a gente não ganha dinheiro o suficiente e nem tempo para viver a nossa vida. É... É uma cilada, Bino!

Texto publicado na minha coluna no Negócio Feminino

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